14 de março de 2010

Nós

Dan, Fa e Bia formavam um trio. Bia morava sozinha e conheceu Fa numa festa, foram juntos para o apartamento dela já na primeira noite. Três meses depois, decidiram morar juntos. Dan era amigo de Fa, quer dizer, colega de curso na Universidade. Depois de formados, se viam em festas e shows e se cumprimentavam de longe. Em um desses encontros, Fa estava com Bia e ela pediu que a apresentasse. Foi instantâneo, conversaram os três pela noite afora, terminaram dividindo a mesma cama na casa de Bia e Fa.

Antes de dois meses, Dan saiu da casa em que vivia com a namorada há quase três anos e foi morar com Bia e Fa. Estavam os três juntos há uns sete meses e tudo corria bem, dividiam tarefas, dividiam o orçamento, mas o apartamento era pequeno. Os três estavam bem no trabalho e resolveram mudar-se para uma casa maior, aí começaram os problemas. Fa queria um quarto de casal com Bia, Bia queria um quarto para cada um, Dan nem queria ir para uma casa, detestava tarefas domésticas e temia que aumentassem. Pensavam também em ter um filho...

Eu ouvia a história estarrecida. Recebera um telefonema marcando uma sessão de família e lá apareceram os três e antes que pudesse esboçar alguma pergunta, contaram-me os fatos com detalhes, um complementando o outro e com uma naturalidade impressionante. Desisti das perguntas e comentei meu espanto. Eles riram e me contaram que o colega que os indicou disse que poderiam me procurar despreocupados porque eu “não me chocaria com nada”. Expliquei que de fato não estava chocada, estava confusa. Eles eram dois casais ou um trio? Explicaram que eram um trio, Bia era a mulher dos dois, Fa e Dan eram amigos, não havia nada de sexual entre eles porque Fa era lésbica. Ah...

Vieram a umas três sessões e dramatizamos algumas possibilidades de solução para a divisão de espaço que, claro, era uma divisão de poder. Optaram por um quarto para cada um e uma faxineira. Resolveram deixar para pensar no filho mais tarde porque enquanto faziam terapia, Fa que seria pessoa a engravidar, ingressou num programa de pós-graduação. Os apelidos andróginos contrastando com as aparências tão tipicamente masculinas e femininas, o bom humor para tratar das situações de ciúme, a organização dos pares para se encontrar com privacidade – até já haviam dormido juntos, mas não havia sexo a três, tudo me surpreendeu nessa família. Soube que continuam juntos, não sei se tiveram filhos.

Famílias que não seguem os padrões ditos normais de composição e funcionamento, muitas vezes, procuram o espaço dramático como um espaço de reconhecimento. Alijadas das rotinas mais comuns de interação entre famílias, às vezes circulando com liberdade apenas em grupos restritos, essas famílias encontram na psicoterapia um lugar de confirmação e acolhimento. Com elas, trata-se menos de encontrar os pontos de conflito, de identificar dinâmicas repetitivas e superá-las e mais de validar a legitimidade de sua busca pelo encontro, a despeito das peculiaridades de suas escolhas.

O pai deixou um recado que queria marcar um horário, mas não poderia ser com a secretária, queria falar só comigo. Liguei e ele me explicou que era o pai de uma “família gay” e queria marcar um horário. Disse que não havia problema. “Achei melhor avisar logo, não sei como são essas coisas.” Perguntei quantos eram. “Somos cinco, incluindo o genro”. Combinamos um horário. “É mais para ver se precisamos mesmo, tenho dúvidas.”

Na hora marcada, estavam os cinco me aguardando, não mostravam nada de especial. Pai, mãe, dois filhos, um genro. Os pais me contaram que se conheceram muitos jovens, no interior, casaram-se e tiveram os dois filhos com apenas um ano de diferença. As crianças ainda eram pequenas quando se deram conta que tinham “desejo por pessoas do mesmo sexo”. Viveram histórias em paralelo ao casamento até que encontraram parceiros fixos, “primeiro eu namorei firme com um colega de trabalho, depois ela saiu de casa para morar com a namorada dela”. “Contamos às crianças desde sempre e elas acho que não tiveram problemas com isso.”

O filho interrompeu para dizer que tinha tido sim muitos problemas, mas superou e não foi fácil “assumir a sexualidade”. Contou que namorou meninas, mas que há cerca de três anos havia se mudado para o exterior com o namorado estrangeiro. A filha, grávida de quatro meses, tomou a palavra e disse que não tinha problemas com as escolhas dos outros, mas que o problema é que eles não aceitavam que ela fosse “hetero”. Contou que queriam que seu marido “achasse tudo normal” e que “tinham que entender que as coisas iriam mudar com a chegada do bebê.”

Seguiu-se uma acalorada discussão sobre fatores genéticos, ambientais e culturais na formação da sexualidade que tomou toda a primeira sessão e repetiu-se em todos os encontros, com intensidade cada vez menor. Falaram sobre o passado, as dificuldades para “assumir” suas escolhas no trabalho, na vizinhança, nas férias. Falaram sobre o presente, o casamento “muito rápido”, a gravidez não planejada, a dependência econômica da filha em relação ao genro, as saudades do filho distante. Mais do que tudo, falaram dos seus temores em relação ao futuro. A grande questão era se seria possível integrar o casal “hetero” à “família gay” e diminuir as expectativas sobre o futuro do bebê.

O genro permaneceu calado e atento até a penúltima das seis sessões. De quando em vez perguntava como ele se sentia e se queria acrescentar algo, as respostas eram sempre: “bem” e “não”. Os outros todos eram tão ruidosos em seus relatos de experiências em “defesa de direitos”, “diversidade”, “liberdade”, “independência”... Ele se considerava “comum e sem graça”, “estava apaixonado e feliz por ser pai”, “não queria fazer um manifesto”. Era filho de um casal de agricultores de uma pequena cidade no Sul, tinha muitos irmãos, mas pouco contato com a família desde que viera para Brasília cursar a faculdade. Quando pedi que avaliasse nosso trabalho até o momento, me surpreendeu dizendo: “Eu aprendi muito vindo aqui, quando estou com vocês fora daqui tenho vergonha de fazer perguntas. Fiquei muito emocionado com as histórias... Mas, acho que não precisamos de terapia. Eu me impressiono com a coragem de vocês. Eu estou inseguro. Não sei como será o futuro e se nossos filhos serão ou não gays, mas tenho outros medos, que para mim são maiores.” Ouvindo-o, os outros emocionaram-se, falaram de seus medos. O irmão, das dificuldades do relacionamento intercultural, da dúvida em casar e obter a cidadania, os pais do medo da velhice, do susto de serem avós. Na sessão seguinte, trouxeram os companheiros, “avós tortos”. Algumas vezes, os vi de longe, em um shopping, no cinema, no restaurante... Parecem bem.

“Todas as famílias felizes se assemelham; mas cada família infeliz, é infeliz a seu modo."(L. Tólstoi)

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